Dois viajantes dançam ao anoitecer

                                                                                            Eleonora Fabião



A Sala Multiuso fica em Copacabana, no Espaço SESC. As janelas amplas e descortinadas deste espaço cênico dão para os fundos de prédios residenciais. Diz a vox populi: “acontece de tudo no mundo, porém com mais frequência em Copacabana”. As frequências de Copacabana. As ondulatórias, as vibratórias, as sísmicas. E os frequentadores de Copacabana. Grupos, categorias, associações, galeras, comandos, turmas, matilhas, enxames, chusmas, famílias, trios, pares, casais, indivíduos, solitários, eu e você. Nós e mais cerca de 140 mil habitantes. A frequência do mundo Copacabana. A noite vem chegando. São seis da tarde neste bairro de misturas sociais, culturais e étnicas múltiplas. É hora em que não se vê muito bem (apesar de ser talvez a hora em que se enxergue melhor). As cores mudam rápido no lusco-fusco. A sombra solta das coisas e vira espaço. No prédio em frente, que enxergo através das janelas do espaço cênico, um lustre é aceso. Uma senhora organiza tábua e ferro para passar roupa na sala de casa. Começa uma dança. Ferro, prancha e mulher. Depois um homem, talvez filho dela, se aproxima para conversar. Mais dança. O enquadramento é duplo—sobrepostas a janela de cá e a janela de lá. De vez em quando, ele desaparece—seja porque vai lá dentro (lá no dentro do dentro do apartamento), ou porque fica tapado pelo retângulo branco apoiado na janela do espaço cênico onde estou. Onde estamos. O retângulo é grande como uma tela grande—vai do teto ao chão. É vertical e está simetricamente dividido em duas partes que estão muito próximas porém não se tocam. O melhor será dizer que trata-se de uma escultura formada por dois retângulos brancos idênticos e uma linha-espaço que os separa e os conecta. Uma fenda. Através da fenda vejo mulher, homem e apartamento como manchas de cor, como formas abstratas. A fenda abre abstração no figurativo. É como se olhássemos de perto o rabo do cavalo do retrato de Felipe IV de Diego Velazquez e espocasse o Outono de Jackson Pollock. Mais. O que a fenda revela é abstracionismo geométrico vibrando no figurativo e a força escultórica do campo cênico. O que fica claro nesta noite em Copacabana é um fundamento geométrico em todas as coisas. Ponto, linha, plano e volumetria tornam-se visíveis nos fios elétricos espalhados pelo assoalho, no laptop aberto no chão, no monitor de vídeo posicionado no proscênio, nos pedestais e seus refletores, nas janelas de Copacabana, nas paredes, teto e piso das salas. E o lusco-fusco é a substância que permeia todas as coisas; é substância de espaço que entremete todas as relações.


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Entra um viajante com sua bagagem: Felipe Ribeiro chega ao anoitecer. Ele, um branco. Ou ainda, um alvo, alvinho, alvo-escuro, amarelado, branco-queimado, branco-sujo, castanho-claro, cor-de-leite-melado, russo-tostado, meio-bege. Ele, um branco brasileiro com camisa cor-de-rosa-fúcsia e calça amarela-verde, traz consigo um amplificador prateado. Uma mala-amplificador apoiada em rodinhas. Para esta viagem tem os pés descalços. Na bagagem o interesse pelo cinema documentário como o título do trabalho indica. Se “Eu, um branco” é dança instalação baseada numa viagem feita por Felipe à Uganda no ano de 2006, “Eu, um negro” de Jean Rouch foi rodado em 1957 na Costa do Marfim e instalou questões definitivas para o cinema-verdade como documentário puro, docuficção e etnoficção. Naquela mala-amplificador Felipe traz também o gosto pela escrita, pela filosofia, pela etnografia surrealista. Adora as máquinas e as tecnologias do pensamento tornado visível—não apenas a câmera, as lentes e a tela, mas o texto, as letras, o papel. Se interessa por híbridos artísticos e ambígenos prático-teóricos em geral. O viajante apaga a luz da sala multiuso do SESC para escutarmos suas palavras amplificadas, para ouvirmos sua voz em off. “Um estrangeiro nunca está só”, diz. Um estrangeiro nunca está só, repito pensando na condição de estrangeiro, nas minhas experiências seja em Abu Dhabi, em Ipanema, num elevador ou em família, nos maravilhamentos e vertigens disso. “Eu não era só eu, nem tinha um equipamento que fosse mais de escrita do que de imagem. Eu era eu atrás de uma câmera, e éramos os dois juntos cinema. Como cinema eu viajei à Uganda, e pelo cinema eu vivi a minha condição de estrangeiro. Eu que olhava com a lente e era através dela olhado”. [1] Uganda, arruda, urra, fura, sutura, satura, rua, afunda, funda, ajusta, aguça, fuça, labuta. [2]


Ele, um branco, olhando para Áfricas, sendo olhado por Áfricas, e se vendo ser olhado por Áfricas que se olham. Mais do que uma questão especular, um jogo de relações entre corpos, culturas e uma câmera na mão. Fim do blackout. A imagem de uma estrada de terra vermelha é lançada na tela fissurada. Em seguida são projetadas mais janelas: os vidros de um carro no trânsito de Kampala e seu espelho retrovisor. Espelho retrovisor que, como escreveu Calvino, é dispositivo que permite ver simultaneamente frente e trás no deslocamento; enxergar simultaneamente o que está adiante, o que se aproxima pelas costas e por onde se passou. Espelho retrovisor que é janela para o passado em movimento. Sim, a mulher ainda está lá do lado de lá, agora pranchando uma camisa branca. Uganda, cultura, fagulha, pulga, mula, multa, mulata, gruta, pulha, pula, agulha, lua, fuma, lupa, nuca, nunca, puta, futuca, azul. “Ela, uma azul” em seu lar: acolhida, aninhada, embrenhada no que lhe é íntimo e familiar, nada estrangeira. Já nós, vivenciando a condição de espectadores, de estrangeiros na nossa própria terra. Estrangeiros na Uganda projetada, na uganda-copacabanenese, no espaço instalativo. Em algum lugar entre a performance, a dança, a palestra, a pesquisa etnográfica, o diário de viagem, a carta, o cinema expandido. Estrangeiros no encontro com um corpo exposto e amplificado, por meio de sua viagem exposta e amplificada, que nos pergunta sobre pertencimento e solidão; sobre estrangeirismo, alteridade, identificação e desidentificação. Espectadores e performers nunca estão sós.


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Em Parables for the virtual: movement, affect, sensation, o filósofo Brian Massumi convoca:


Encontre um vocabulário teórico-cultural específico ao corpo. Use-o para expressar a participação não-mediada da carne na imagem (seja “natural” ou mass-mediated). Encontre uma lógica para o corporal (corpo e imagem) que não o oponha ao virtual, mesmo que ela os distinga como dimensões um do outro. Encontre uma lógica para o virtual (sem-imagem e potencial) que não o remova do real; por exemplo equacionando este com o imaginário. Separe, ao invés, o sem-imagem do Ideal. Por um materialismo incorporal. [3]



“Eu, um branco” pesquisa relações entre corpo e imagem. Busca, como propõe Massumi, “um vocabulário teórico-cultural específico ao corpo” por meio da arte da cena; mais especificamente por meio de uma etnografia performativa. Busca senão uma lógica, ao menos um encaminhamento para o corporal e para o virtual que os liberem do Ideal sem contudo afasta-los do incorporal e do imaginário. Interessam os entrecruzamentos corpo-imagem e imagem-corpo em contexto sócio-político—o corpo em sua dança incorporal porém não menos material, e a imagem em sua dança carnal porém não menos virtual neste encontro entre Uganda e Brasil. Corpo e imagem fazendo-se um através do outro nalgum lugar entre Rio de Janeiro e Kampala. Uma dança de relações entre corpo e imagem neste nosso mundo dito “pós-colonial” ainda que prevaleçam forças, valores, atos, fatos, afetos, imagens, imaginários e modos de relação marcadamente extrativistas, dominadores e escravizantes. Aqui a fenda já é outra: as conjunções e disjunções, os enlaces e embates entre corpo e imagem para a criação de uma “etnografia da incorporação” [4] que não dispensa o confronto com fantasmagorias inúmeras. Uma cena-fenda que libera fantasmas, fantasias, encostos, impregnações, heranças coloniais. Uma cena espelho retrovisor que nos deixa ver o passado em movimento no presente. Que lida com a violência dos clichês e dos pré-conceitos raciais e de gênero militando delicadeza, queerness e espírito crítico. Etnografia honesta e encarnada cujo suporte não poderia ser outro que a zona instável e indeterminada da arte contemporânea. “Eu, um branco” é dança para descolonizar corpo e imagem; isto é, para desejar, experimentar e inventar possibilidades com corpo, de dança e em imagens nestes nossos tempos neo-coloniais.


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Entra outra viajante. Isabel Martins veste camiseta cor-de-abóbora, calça rosa e não traz mala. Braços fortes e nus. Quando começa a falar vejo que não é brasileira—entendo pouco sua língua. Porém, apesar de não compreende-la, a percebo muito bem. Enxergo na carne dela a terra de onde vem (isto é difícil de explicar ainda que talvez fácil de compreender). Através da fenda enxergo na Isabel um lugar. Um lugar que ela faz imaginar em mim. Por meio desta mulher enxergo imagem em mais outra dimensão. Naquele corpo-fenda os virtuais não apenas rondam, friccionam e colidem nos atuais desdobrando-os. A vibração é tanta, tão multidirecional e tão concentrada que, por alguns instantes, a diferença entre virtuais e atuais cai por terra. É tudo corpo e é tudo imagem. É tão imagem quanto corpo. Tecnologia extraordinária esta da Isabel de gerar uma terceira materialidade. De gerar com sua vibração uma outra visão, uma outra dimensão; de abrir com a sua dança mais uma fenda e me transportar para lugares. Aqui deslocamento é estratégia artística e política para que possamos mais uma vez (e outra vez mais) conhecer e estranhar o mundo. Estratégia para atualizar nossa condição de viajantes. Estamos aqui de passagem. “Esse mundo não é meu, esse mundo não é seu.” [5] Isabel é filha de pai nascido em Angola e mãe da Guiné Bissau. Ela nos fala de primos e cartas e galinhas e ensina para o Felipe uma dança dela e dos dela. É bonito ver o jeito como ele absorve o movimento que ela emana, e o modo como ela se escuta para fazê-lo entender. As frequências deles em Copacabana. Também o jeito como ela o absorve e como ele se faz no campo (d)ela. Tem gravidade e tem graça. Questões do pertencimento e do não-pertencimento, do encontro e do desencontro, das adequações e das inadequações, de escuta e de surdez, dos sistemas Uganda, Brasil, eu, tu, ele, nós, vós, eles, Felipe Ribeiro, Isabel Martins e Denise Stutz. E mais as relações entre virtuais e atuais, entre visão e alucinação, significantes e significados, alteridade e identidade, reconhecimento e perdição. Questão de sentidos e de falta de sentido num mundo de infinitas configurações sistêmicas. Este nosso mundo de tantas velocidades, deslocamentos e imagens. Um mundo de corpos materiais e imateriais que a dança é capaz de acessar de maneira única porque pensa e se faz de relações em movimento.


Rio de Janeiro, maio de 2014.




Eleonora Fabião é performer e teórica da performance. Professora da graduação e pós-graduação em Artes Cênicas da UFRJ, é doutora em Estudos da Performance (New York University).  Este texto foi produzido à convite da produção de Eu, um Branco e como parte do programa Escritos Críticos proposto ao Premio Petrobras Funarte Klauss Vianna -2012.


NOTAS:

[1] Excertos do texto de “Eu, um branco” (Felipe Ribeiro, 2013).

[2] Referência ao texto de “Eu, um branco” onde inúmeras palavras que combinam as vogais “a” e “u” são listadas.

[3]  MASSUMI, Brian. Parables for the virtual: movement, affect, sensation (Durham and London: Duke University Press, 2002), p. 66. Minha tradução.

[4]  Ver programa da peça: “A condição de estrangeiro é fundamental para a etnografia e penso que o estrangeiro é uma oscilação entre expurgos e assimilações do corpo. Estar atento a essa oscilação é construir sentidos, e talvez seja aí que possamos propor uma etnografia da incorporação. Uma forma de etnografia sobre a qual a África parece ter muito a dizer”.

[5]  Letra da música “Eu não sou da sua rua” de Branco Mello e Arnaldo Antunes.

Eu, um Branco

TEXTOS

Texto de Denilson Lopes  >>Eu_um_Branco_Textos_2.html