Para acalmar a boca

PARA ACALMAR A BOCA

Uma meditação entre a ambivalência de se construir espaços, gerar energia, e produzir dejetos. A boca masca e esta constância é sua proposta experimental. Mastigar o capim para não se falar de boca cheia. Mascar não é calar, mas uma ação que chega depois da fala. Uma ação silenciosa de degustar perguntas.

Mascar é ativar a mandibula, o centro das forças primárias. Forças intuitivas, premonitórias, defensivas, contráteis, eróticas, e que agarram o mundo. Há na mandibula um tanto de mão, e nas mãos certamente um monte de dentes. Aqui, acalmamos a boca, mas mantemo-la ativa.

Mascar o capim, cobrir o espaço de grama. Passar da tridimensionalidade dos cubos de tapetes de grama empilhados, à horizontalidade de um campo verde. Plano e provisório, esse campo é uma zona de experimentação. Um retângulo construído dentro e fora da Casa. Um retângulo liminal que atravessa as paredes da casa. Há algo de meditativo nessa composição, há também um convite à compartilhar esse espaço fora-dentro. O campo não é só grama, é campo energético, é campo de quem entrar nele, passar por ele, ficar nele, construí-lo.

Há a grama, há o capim salivado, e há água diluindo as substâncias. Matéria orgânica e organicidade processada, mas também o geométrico e o informe em uma relação de ambivalência que propoe outras possibilidades de experimentar o tátil no visual e o visual no tátil.

Acalmo a boca para que vigore a ambivalência e nela a pergunta: Como se situar entre o construtivismo e a abjeção?

(F.R.)


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Performance duracional ocorrida na Casa França-Brasil, RJ - dez/ 2016